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"Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura.

É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação.

Livros e papéis, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual."

Os gatos brancos, descoloridos, passeiam pela tinturaria, miram polícromos vestidos.

Com soberana melancolia, brota nos seus olhos erguidos o arco-íris, resumo do dia, ressuscitando dos seus olvidos, onde apagado cada um jazia, abstratos lumes sucumbidos.

No vasto chão da tinturaria, xadrez sem fim, por onde os ruídos atropelam a geometria, os grandes gatos abrem compridos bocejos, na dispersão vazia da voz feita para gemidos.

E assim proclamam a monarquia da renúncia, e tranqüilos vencidos,  dormem seu tempo de agonia. Olham ainda para os vestidos.

Com um lindo salto, lesto e seguro, o gato passa do chão ao muro Logo mudando de opinião, passa de novo do muro ao chão.

E pega corre bem de mansinho, atrás de um pobre de um passarinho Súbito, pára, como assombrado, depois dispara, pula de lado.

E quando tudo se lhe fatiga, toma o seu banho passando a língua pela barriga.

Um gato vivo é qualquer coisa linda
Nada existe com mais serenidade
Mesmo parado ele caminha ainda
As selvas sinuosas da saudade
De haver sido feroz. À sua vinda
Altas correntes de eletricidade
Rompem do ar as lâminas em cinza
Numa silenciosa tempestade.
Por isso ele está sempre a rir de cada
Um de nós, e ao morrer perde o veludo
Fica torpe, ao avesso, opaco, torto
Acaba, é o antigato; porque nada
Nada parece mais com o fim de tudo
Que um gato morto.

Jardim da pensãozinha burguesa.
Gatos espaçados ao sol.
A tiririca sitia os canteiros chatos.
O sol acaba de crestar as boninas que murcharam.
Os girassóis amarelo resistem!
E as dálias, rechonchudas, plebéias, dominicais.
Um gatinho faz pipi.
Com gestos de garçom de restaurant-Palace
Encobre cuidadosamente a mijadinha.
Sai vibrando com elegância a patinha direita:
-- É a única criatura fina na pensãozinha burguesa.

O gato é secreto.
Tece com calma o mistério do mundo.
O gato é elétrico.
Pura energia a percorrer a espinha.
O gato é orgulho.
Sem humildade, jamais se entrega.
O gato é desejo.
Atração pela lua e telhados.
O gato é sagrado.
Olho no olho que brilha.
Um susto.
Parece que vemos Deus.

"Caviloso: Essa palavra saiu da moda mas deveria ser reconduzida, não existe melhor definição para a alma do felino. É certas pessoas que falam pouco e olham. Olham.

Cavilosidade sugere esconderijo, cave -- aquele recôncavo onde o vinho envelhece.

Na cave o gato se esconde, ele sabe do perigo."

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